A vitrine estava empoeirada,
eu, dentro dela:
uma vidraça embaçada.
Tímida, discreta, calada.
Nada que atraísse os passantes.
Mas, ali ,sem fingir,
batia o meu coração.
Era um palco silencioso,
cheio de sons,
nada que lembrasse o mofo,
tipo algo perigoso.
Lá dentro, o vinil tocava.
Sob a penumbra,
a luz da lua.
Cabisbaixa,
Hope soprava sua gaita
que chorava.
Para mim, no quarto, ela cantava,
O tempo se movia
sobre o silêncio,
mas nada me dizia!
O meu quarto era um lar,
um palco para Mazzy Star:
Hope era a esperança,
a pujança que chegava
a passos leves…
Ela trazia na mala
um blues à minha alma
que não se calava.
Havia um aroma doce
de pipoca com canela.
Sobre a mesa,
uma Coca-Cola aberta,
um pedaço de pão sem solidão,
queijo e fatias de mortadela.
No meu velho violão
ela entoava mais uma canção.
O vento ouviu
e foi bater na janela,
soprou até entrar —
rebelde, calçou meu All Star.
Depois, se foi
sem avisar.
Naqueles tempos, eu estava liso;
até hoje sei como é isso.
Mas nem por isso
deixo de pisar os ladrilhos.
Eu era um perfeito esquisito.
Minha franja era trigo,
ora gel...
Mas tinha brilho.
Gastara as últimas moedas no cinema.
Chegara à segunda sessão,
com ela — dezessete anos,
tão linda e cheia de vida.
Na tela, Cinema Paradiso.
Era eu e aquele belo sorriso;
sem aviso, a beijei,
Foi quando me apaixonei!
Meus versos corriam soltos;
tão atrevidos ao ouvidos,
buscavam sentido,
queriam chegar ao céu.
Na pia, minha velha mania
de esquecer a pasta de dentifrício.
Era mesmo um cara indeciso:
espremia algumas espinhas no rosto.
Eu era apenas um jovem moço.
Com certo receio,
um dia fui à caixa de correios.
Dentro, uma carta:
as fardas e as armas
haviam caído.
Era assim que estava escrito,
o dia amanhecera lindo.
O mês era agosto.
O ano, 1988.
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Pipoca e caramelo
por ChicosBandRabiscando



