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domingo, 25 de janeiro de 2026

Pipoca e caramelo



A vitrine estava empoeirada,

eu, dentro dela:

uma vidraça embaçada.


Tímida, discreta, calada.

Nada que atraísse os passantes.


Mas, ali ,sem fingir,

batia o meu coração.


Era um palco silencioso,

cheio de sons,

nada que lembrasse o mofo,

tipo algo perigoso.


Lá dentro, o vinil tocava.

Sob a penumbra,

a luz da lua.


Cabisbaixa,

Hope soprava  sua gaita

que chorava.

Para mim, no quarto, ela cantava,


O tempo se movia

sobre o silêncio,

mas nada me dizia!


O meu quarto era um lar,

um palco para Mazzy Star:


Hope era a esperança,

a pujança que chegava

a passos leves…


Ela trazia na mala

um blues à minha alma 

que não se calava.


Havia um aroma doce

de pipoca com canela.


Sobre a mesa,

uma Coca-Cola aberta,

um pedaço de pão sem solidão,

queijo e fatias de mortadela.


No meu velho violão

ela entoava mais uma canção.


O vento ouviu

e foi bater na janela,

soprou até entrar —

rebelde, calçou meu All Star.


Depois, se foi

sem avisar.


Naqueles tempos, eu estava liso;

até hoje sei como é isso.


Mas nem por isso

deixo de pisar os ladrilhos.


Eu era um perfeito esquisito.

Minha franja era trigo,

ora gel...


Mas tinha brilho.


Gastara as últimas moedas no cinema.

Chegara à segunda sessão,

com ela — dezessete anos,

tão linda e cheia de vida.


Na tela, Cinema Paradiso.

Era eu e aquele belo sorriso;

sem aviso, a beijei,

Foi quando me apaixonei!


Meus versos corriam soltos;

tão atrevidos ao ouvidos,

buscavam sentido,

queriam chegar ao céu.


Na pia, minha velha mania

de esquecer a pasta de dentifrício.


Era mesmo um cara indeciso:

espremia algumas espinhas no rosto.


Eu era apenas um jovem moço.


Com certo receio,

um dia fui à caixa de correios.


Dentro, uma carta:


as fardas e as armas

haviam caído.


Era assim que estava escrito,

o dia amanhecera lindo.


O mês era agosto.

O ano, 1988.


_________&

Pipoca e caramelo

por ChicosBandRabiscando

sábado, 22 de novembro de 2025

Além do mirante

 



Eu estava lá,

contemplava o mar.


Toda a minha poesia foi reduzida a uma singularidade.

Um simples ponto — a que chamei saudade!


Ali fiquei a chorar,

vendo as barcas passarem caladas,

levadas pelas águas.


Oxalá,

eu estava colapsando,

meu coração dilacerado.

Como se estivesse apaixonado.


As ondas batendo nas rochas,

gaivotas pousando, depois voando.

Era como se me abrissem uma porta.


Sentado ao longe,

me pus a pensar.

Já não tinha um nome.


No porto,

sobre o mirante,

minha alma navegante,

saltitante,

já estava distante…


______&_

Além do mirante

por ChicosBandRabiscando

Imagem:

https://images.pexels.com/photos/7539717/pexels-photo-7539717.jpeg


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

O livro do amor


Para cada amor sentido,

existe uma página no livro.


Ainda que, pelo tempo,

calem-se os lamentos e juramentos,

nenhum ser amado é substituído.


O puro sentimento não padece ao relento.

O amor não tem prazo de validade,

tampouco morre na saudade.


O que se sublima, para sempre, brilha;

o amor, a si mesmo, se assina —

faz parte do firmamento.


Portanto, que ninguém diga

que o tempo tudo apagou.

Diga apenas:

a dor se curou,

a ferida cicatrizou.


No curso das águas há liberdade;

nenhuma lágrima se cala

até reencontrar o mar.


Quando a alma está cheia,

precisa transbordar pra se achar.

E, do alto, novamente cairá,

molhará a terra — renovando as primaveras.


E assim, sem falar de um fim,

criará novos jardins.


Pois, na sede,

correrá pelas veias,

reacendendo a centelha.


O amor simplesmente escorre,

tudo pode,

do sul, alcança o norte.


Que fique aqui escrito:

o hálito que sopra é divino,

faz parte do ciclo infinito...


Porque tudo que desce,

sobe;

não morre,

é sentido,

não pode ser perdido.


Amor,

esse estranho navegante,

chega-me de águas tão distantes!

Lava-me de todas as feridas.

Curado, presencio tua partida.

_____________&

 O Livro do Amor

por ChicosBandRabiscando


Imagem:

https://www.pexels.com/pt-br/foto/mar-natureza-homem-oceano-7538771/

1971, um conto ao mar


  

Eu estava no ponto,

e só tinha um conto.

Um conto para passear.


Da janela avistei o mar...

Foi quando alguém me chamou:

— Seu moço, por acaso você tem algum troco?


Quem era aquele rosto?


Surpreso… percebi mais uma moeda no bolso.

Ela pegou, pagou o cobrador — que se calou —

e, sem dizer nada, tão perfumada,

sentou-se ao meu lado.


No trajeto falávamos de quase tudo — até de amor.

E assim decidiu descer comigo até a praia.


Não sei…

mas estava tão linda com aquela saia bordada.


Ah, Deus me valha!

Sob o mirante, nos beijamos ofegantes__

até parece que Iemanjá queria nos casar.


O ano era 1971, um verão,

 não foi só mais um.

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1971, um conto ao mar

por ChicosBandRabiscando


Imagem:https://unsplash.com/pt-br/fotografias/um-casal-feliz-se-abraca-na-praia-ao-por-do-sol-C0Ph5vCSq3U