Césio-137:
O césio do descaso,
do mal que se propagou como peste;
um brilho radioativo,
um fascínio de perigo
na dor dos que foram esquecidos.
O césio da morte,
daqueles que não tiveram sorte.
Como pode?
Nos escombros, a cápsula maldita!
Deixada ali, ao descaso...
O perigo estava a um passo,
triste dança macabra,
do centro aos bairros.
Permeou as entranhas da jovem Goiânia,
de um povo que foi isolado,
marcado por uma chaga.
Quem és tu, ó nação?
Por que foi tanta a discriminação?
Na carne, aquela ferida
levada como um estigma.
Faltava chão ao coração;
sorte ou não,
nenhuma delas teve opção!
Nas telas, a arte traz a reflexão:
das almas que foram atingidas.
Contaminadas e condenadas,
assim foram enterradas,
lacradas pelo chumbo e pelo cimento,
fadadas ao esquecimento.
O aterro é o símbolo do nosso desmazelo,
é o nosso próprio espelho:
de uma mãe que chorava por sua filha,
de uma multidão sem empatia,
travestida em fobia.
Abadia de Goiás
não descansa em paz.
Por cada jornal,
a capital foi vista como um mal...
No estádio, as filas, o contador Geiger;
o terror estampado em cada face.
Foi um tempo em que tentaram apagar o nosso futuro.
Maldita radiação!
Uma dor de Chernobyl,
uma dor no coração do Brasil.
Porém, não.
A contaminação não nos venceu:
do verde, a cidade novamente floresceu...
E desse Cerrado tão violado,
Goiânia renasceu,
não morreu!.
Mas as vítimas ainda gritam:
pedem para não serem esquecidas.
Esses versos não podem ser malditos,
pois clamam pela vida;
a poesia vem para curar as feridas.
Não chore, olhinhos tristes...
eu sei: tiraram de você até sua boneca,
vítima daquela tragédia.
Menina, tua alma vive, resiste!
Por ti, os anjos fazem preces:
teu nome Deus não esquece.
Essa dor você não merece.
E assim, Ele escreve:
Leide das Neves.
Eterna flor-primavera,
jamais será breve.
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Césio-137
por ChicosBandRabiscando
