Metamorfose
por ChicosBandRabiscando
É tão difícil dizer o que sinto...
Mas admito meus conflitos —
não minto.
Jogo limpo.
A manhã virou-se neblina sobre o cais.
Ao longe, escuto os navios apitando,
quase me levando.
Porém, viro — e me cubro de novo.
Não!
Eu não digo “tanto faz! ”
Ah, isso, jamais!
Minha felicidade eu assumo.
Confesso-me seduzido pelo lume,
pelo ar puro.
Quero mais....
É tão bom sentir seu perfume.
Risco um sol na vidraça,
dias tristes também passam.
Espreguiço, aqueço o café.
Tenho fé. Espero pelo que vier.
Não me acostumo ao frio,
ao exílio do vazio.
Espero ansioso pelas chuvas,
fico aqui observando as ruas.
Eu sei: o tempo tem pressa,
abomina a inércia.
Abro a porta, saio.
Nada na caixa de correio.
O dia, tímido...
Fico pensando nisso.
Não encontro respostas nos livros.
Será melancolia — ou só filosofia?
Escuto os primeiros pingos, então, me arrisco.
Corro — escancaro as janelas.
As nuvens carregadas pelo cinza;
a chuva cai límpida, viva.
O tempo não se prende aos sentimentos.
Vem como os ventos:
varre as gavetas, minhas certezas,
corrói o velho alicerce.
O tempo de nada esquece.
Mas sem demora, eu digo:
Será agora?
Assino uma nova carta.
O que me aborrece só me envelhece.
Não vou esperar mais uma aurora.
A esperança é o que me aquece.
Vou-me embora!
Os carros passam — agressivos,
quase sempre buzinando.
Não ligo.
Eu me permito.
Piso calçadas molhadas,
sem declive,
tão bem acabadas.
Qual é o crime por amar a arte?
O tempo já não corre —
me colore.
Alço voo.
Não sei mais quem eu sou!
O tempo tudo pode:
vou perdendo as cascas,
não tenho mais casa.
Assim me vejo em metamorfose.
Corro solto como um garoto,
faço versos pelos muros.
Me apaixono pelos solos de um violão.
Agora eu sei...sei a direção.
Um a um, vou contando os ladrilhos...
Caminho sob um sol que brilha.
A vertigem da fuligem já não me atinge.
Me vejo à beira do cais.
No mirante, a velha cidade — distante.
Chego ao porto sem avisar.
Um navegante sem documento,
trago apenas o que pulsa aqui dentro.
O passado deixei à margem da saudade.
Sou filho dessas paragens.
O mar me chama — não olho para trás.
Minha alma chega em paz.



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