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sexta-feira, 10 de abril de 2026

A floresta sintética

 


A floresta sintética

por ChicosBandRabiscando


Parece que estamos comprimidos em caixinhas.


Ora isso,

ora aquilo…


Não é isso;

falta brilho,

poesia!


Como dói sentir essa letargia,

uma vida consumida e vazia...

O sistema nos tornou enlatados,

tão viciados.


Em telas de plasma,

vagam fantasmas,

verdadeiros miasmas,

numa dor que não passa.


Gritamos, mas não podemos ser ouvidos.

Tornamo-nos um produto a ser consumido;

isto é, até sermos esquecidos


Entupidos  por tantas séries,

breves e infinitas,

assim como o dedo que corre pela tela.


O automatismo tornou-se um padrão.

Talvez já não haja outra opção.

A verdade é que nada mais nos fere.


Somos um cardume atraído por um falso brilho,

em rede, num longo exílio.


A alma chora por nossa queda…


Mas a floresta se ergue e nos fecha.

E no labirinto, procuramos alguma  brecha.

A  felicidade teme a liberdade.


O sistema edita a memória do mundo,

escreve uma nova Wikipédia,

os versos da nossa tragédia.


Na carne, o sangue que corre é sintético.

Onde estão as nossas vidas?

A saída?


O algoritmo segue num ritmo lógico,

mas o coração, não.

Anda cansado dessa ilusão,

clama pelo analógico.


E, nesse saudosismo,

choramos pelo Paraíso.


Tudo se tornou tão limpo, 

pulsamos por circuitos.

O que mais faz sentido?


A arte



 A arte

por ChicosBandRabiscando


A arte vem

para expor os paradoxos.


O que se oculta

aos olhos.


Pensar é representar,

é não omitir,

é não negar.


A arte é subversiva,

não contradiz a vida.


Rebelde,

ela se veste

e se traveste.


Se expressa no grafite.

É urbana.

Tem muitas escamas.


Jamais dorme

na mesma cama.

Tem fama de cigana.


A arte é rupestre.

É colorida,

abomina o cinza,

embora sinta,

não é triste.


A arte é carnívora,

nasceu para os vivos,

não os passivos.


Ela a assina,

se inflama,

não vive

em uma única ilha.


Nunca,

nunca termina...


A arte denuncia,

é como uma fotografia,

uma poesia.


A arte reflete,

não perece,

nem esquece.


A calçada

 



A calçada

por ChicosBandRabiscando


A calçada estava perfeitamente limpa, 

sem vida.

O piso estava liso,

metricamente preciso.


A terra, 

cimentada por camadas.

Não se tratava de adubo,

eram túmulos.


Estava bela aquela fachada,

sem nenhuma folha.


As árvores

não tiveram escolha.

Morreram caladas.


Os dias passaram…

O vento soprava lento.

Não havia mais movimento.


Do chão, nada mais brotava.

Apenas esquecimento.

Será que só eu estava vendo?

Metamorfose( completo)




Metamorfose
por ChicosBandRabiscando

É tão difícil dizer o que sinto...
Mas admito meus conflitos —
não minto.
 Jogo limpo.

A manhã virou-se neblina sobre o cais.
Ao longe, escuto os navios apitando,
quase me levando.
Porém, viro — e me cubro de novo.

Não! 
Eu não digo “tanto faz! ”
Ah, isso, jamais!
Minha felicidade eu assumo.

Confesso-me seduzido pelo lume,
pelo ar puro.
Quero mais....
É tão bom sentir seu perfume.

Risco um sol na vidraça,
dias tristes também passam.
Espreguiço, aqueço o café.
Tenho fé. Espero pelo que vier.

Não me acostumo ao frio,
ao exílio do vazio.
Espero ansioso pelas chuvas,
fico aqui observando as ruas.

Eu sei: o tempo tem pressa,
abomina a inércia.
Abro a porta, saio.
Nada na caixa de correio.

O dia, tímido...
Fico pensando nisso.
Não encontro respostas nos livros.
Será melancolia — ou só filosofia?

Escuto os primeiros pingos, então, me arrisco.
Corro — escancaro as janelas.
As nuvens carregadas pelo cinza;
a chuva cai límpida, viva.

O tempo não se prende aos sentimentos.
Vem como os ventos:
varre as gavetas, minhas certezas,
corrói o velho alicerce.

O tempo de nada esquece.
Mas sem demora, eu digo:
Será agora?
Assino uma nova carta.

O que me aborrece só me envelhece.
Não vou esperar mais uma aurora.
A esperança é o que me aquece.
Vou-me embora!

Os carros passam — agressivos,
quase sempre buzinando.
Não ligo. 
Eu me permito.

Piso calçadas molhadas,
sem declive,
tão bem acabadas.
Qual é o crime por amar a arte?


O tempo já não corre — 
me colore.
Alço voo.
Não sei mais quem eu sou!

O tempo tudo pode:
vou perdendo as cascas,
não tenho mais casa.
Assim me vejo em metamorfose.

Corro solto como um garoto,
faço versos pelos muros.
Me apaixono pelos solos de um violão.
Agora eu sei...sei a direção.

Um a um, vou contando os ladrilhos...
Caminho sob um sol que brilha.
A vertigem da fuligem já não me atinge.
Me vejo à beira do cais.



No mirante, a velha cidade — distante.
Chego ao porto sem avisar.
Um navegante sem documento,
trago apenas o que pulsa aqui dentro.

O passado deixei à margem da saudade.
Sou filho dessas paragens.
O mar me chama — não olho para trás.
Minha alma chega em paz.